| “Se no nosso país é permitido entrar no mundo do trabalho com 16 anos, porque não é permitido fazer voluntariado com 17 anos?”. A questão, posta assim, de forma muito directa e franca, como é apanágio dos jovens, dá que pensar. A mim, transporta-me muitos anos atrás, quando, aos 14 anos, vesti pela primeira vez a farda de bombeiro. E transporta-me também às conversas que tinha com os meus companheiros de então sobre a vontade de entrar em acção.
Já então a questão era pertinente, mas eu, e porventura muitos outros, tivemos a sorte de ser iniciados no voluntariado com os eventuais defeitos mas, também, com as muitas virtudes da época. As oportunidades iam aparecendo para acompanhar e, até, participar em tarefas operacionais adequadas ao grau de formação e à própria idade. Então, as oportunidades surgiam também em função, por exemplo, da sensibilidade e da vontade das chefias ou dos mais graduados que estavam de serviço. Em função do tipo de missão, da sua extensão, duração e risco, nem sempre era fácil obter o “OK” para subir à viatura e ir para o fogo, o acidente ou o caso de doença súbita. Mas havia aqueles chefes e graduados que eram mais flexíveis, mais sensíveis ao nervo e ao gás dos mais novos, e eram esses que nos proporcionavam os momentos mais importantes de iniciação que hoje perduram ainda na nossa memória. Muita coisa mudou, mas a garra com que hoje, como está provado, os cadetes desejam participar e intervir é a mesma. E importa que haja resposta para eles. Adequada, com certeza. Mas também motivadora, desafiante, mobilizadora. Muitos cadetes queixam-se do facto de a sua participação, por vezes, se circunscrever a acompanhar os mais novos, de 7, 8 ou 9 anos, para “vestir uma farda apenas ao sábado e ir só ao quartel umas horas de tarde, junto com meninos pequenos, para receber formação”. Amigos, este desabafo de um grupo de cadetes que nos chegou não pode deixar de ter resposta! Para muitas associações, consagradas em adequar a formação em função dos estímulos do crescimento e da própria idade, este não será um problema. Mas noutras, contudo, até será. E importa que dirigentes e membros dos comandos sejam sensíveis a isso, para que, mesmo que inadvertidamente, não possam comprometer vocações nascentes, ainda não consolidadas mas sedentas de afirmação, experiência e identidade. “Não vejo mal nenhum em que, com 17 anos, os cadetes possam ter lugar num piquete de voluntário, colaborar no serviço de ambulância como terceiro elemento, pois servimos para ajudar, nem que seja para fazer chegar material ao teatro de operações”. Em contraponto a este grito de alma, poderão esgrimir com o teor da lei e os eventuais impedimentos à participação dos cadetes. Sei tudo isso. Sei também que paira uma enorme responsabilidade sobre os dirigentes dos corpos de bombeiros no que diz respeito ao acompanhamento e à defesa da integridade física e mental dos cadetes, nomeadamente na sua eventual participação operacional. Mas, correndo o risco de ser politicamente incorrecto, atrevo-me a defender a oportunidade de propiciar aos jovens cadetes as descargas de adrenalina que todos nós, que passámos por elas e as retivemos na nossa memória como momentos de verdade, momentos a sério que constituem a verdadeira iniciação, a partir da qual já não nos passámos apenas a chamar bombeiros, mas, de facto, a sentirmo-nos verdadeiramente como tal. O director rama.silva@lbp.pt Fonte: Jornal Bombeiros de Portugal da Liga dos Bombeiros Portugueses |